Nota do autor

 

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Olá meus queridos leitores! Saudades! Como vocês estão? Espero que esse post os ache bem, ultimamente tem sido um turbilhão de coisas acontecendo! Faz mais de um ano que não postava nada, e se você me acompanha nesse blogzinho perdido da internet já reparou que isso costuma acontecer com certa frequência. Não por falta de posts ou de rascunhos, mas por falta de vontade mesmo.

Colocar minhas ideias aqui tem sido algo difícil, talvez por desanimo também. Tenho cogitado a finalidade desse blog, e não sei se vou mantê-lo no ar quando acabar o domínio e a hospedagem dele que renovei ate 2028. Eu sempre tive clareza em muitas coisas que faziam sentido para mim e agora tenho questionado elas cada vez mais. Uma delas tem sido minha escrita, não sinto que escrevo bem, e mesmo que consiga me comunicar , não vejo sentido mais em fazê-lo por aqui, a internet mudou tanto, o mundo tem mudado tanto que escrever num blog na internet virou algo retrô, algo datado da minha geração os Millenials.

Bom entre muitas descrenças e reflexões senti que essa reflexão tem alguma coerência e talvez faça sentido compartilhá-la aqui. Hoje vai ser um texto bem mais curto do que costumo escrever, porem embasado filosoficamente, pegue seu café quentinho sente na sua poltrona e boa leitura! 🐇🎩

Chegar aos 35 anos , me fez passar por algumas experiências que refletidas na terapia me levaram a um outro entendimento da vida. Eu sempre odiei a ideia de que não podemos ter liberdade e controle da nossa própria vida! Eu tenho reatância cognitiva, então toda vez que me enxergo pressionado , eu tento resistir aquela ideia sendo do contra. Mesmo que algumas vezes essa ideia fosse benéfica a mim. Eu sempre tratei isso como autonomia e personalidade próprias. Mas já me autossabotei algumas vezes, já atrasei meu próprio caminhar , apenas porque queria ser diferente dos outros. Hoje depois da terapia consigo com clareza identificar esses momentos de sabotagem e me controlar. Uma dessas coisas é minha generosidade para com as outras pessoas.

Sempre acreditei no potencial das pessoas, no que elas poderiam vir a ser. Não é atoa que trabalho na área da educação e por mais dissabores e desvalorização que temos ao trabalhar nessa área ainda há o vir a ser . Cada pessoa é um mundo com possibilidades infinitas , e nós como professores somos a ponte delas.

Isso tudo contribui para minha idealização das pessoas, eu sempre me doei por inteiro e entreguei meu melhor a qualquer pessoa que demonstrasse o mínimo de interesse , sempre dei segundas , terceiras e até quartas chances a amizades e relações tóxicas .Tive algumas pessoas que deixei entrar várias vezes na minha vida e a cada vez que entravam ao invés de aproveitar essa oportunidade que as dava elas faziam sempre pior.

Esse comportamento por exemplo, do ponto de vista da psicologia comportamental, isso se chama armadilha de reforço intermitente. Quando concedemos segundas chances sem que haja uma mudança real de atitude do outro para conosco, nós acionamos o mesmo mecanismo psicológico que vicia alguém em jogos de azar. No entanto, a outra pessoa não percebe nossa concessão como generosidade; vê ela como uma barra de tolerância móvel. Consequentemente, o nosso limite flexível funciona como um convite involuntário para a escalada do desrespeito.

 

Jean Paul Sartre e a responsabilidade existencial

Na flosofia, essa recusa em continuar sendo refém dos acontecimentos se conecta fortemente com um dos meus filósofos favoritos Jean Paul Sartre. Sartre diz que: quando nos colocamos como vitimas impotentes das circunstâncias; como se não tivéssemos escolha a não ser continuar na mesma dinâmica; é uma forma de fugir da dor e de da responsabilidade da nossa própria liberdade. É como sentar no banco do carona e assistir sua vida ser dirigida pela aleatoriedade ou por quem quiser . Quando decidimos que já não nos cabe mais em determinadas situações, deixamos de ser objetos da ação dos outros. Passamos a ser protagonistas de nossa própria história.

A liberdade para Sarte exige uma postura autêntica em assumir o protagonismo de nossa vida, isso não quer dizer que sejamos mais felizes, porem que sejamos mais conscientes e mais coesos. Existe uma frase de Guimarães Rosa que encaixa perfeitamente aqui:

 

“O rio não quer virar mar, ele quer se tornar mais largo e profundo.”

Guimarães Rosa

 

Eu li essa frase e fiquei alguns meses pensando na quantidade de significados que ela tem. E nesse sentido ela se encaixa no que estou falando. A maioria das pessoas faz uma busca incessante pela felicidade superficial a todo custo. Elas não se importam com o preço que elas pagam para conseguir ter uma paz ou um deleite mesmo que frágeis e ilusórios. Mesmo que esse preço na maioria das vezes, seja o de sentar no banco do carona da própria vida. Se quisermos ser protagonistas temos que assumir um verdadeiro compromisso conosco de buscar a profundidade a autenticidade. Um rio só consegue ser largo e profundo porque possui margens bem definidas.

Seguindo a metáfora entendemos que sem as margens, a água não pode virar mar. Ser autentico consigo mesmo e respeitar seus limites, não para punir os outros, mas para garantir que o fluxo tenha direção volume e sustentação. A vida pode não ser perfeita cheia de momentos alegres e felizes, haverá dias de profunda tristeza, momentos de tédio e desilusão, mas é uma vida que nós escolhemos construir, uma vida com profundidade!

Mas ao fazer terapia eu percebi também, que estabelecer limites e ser congruente consigo sempre tem um preço. O luto de aceitar que certas pessoas preferem a superficialidade e não vão te acompanhar na profundeza. As pessoas não vão aceitar tranquilamente que agora não conseguem ultrapassar seus limites, elas vão reclamar, vão espernear e você talvez já não seja uma pessoa mais tão boazinha na percepção delas.

E por fim estabelecer limites em nossas relações significa lidar com a dor da clareza, porque enxergar a realidade como ela é exige abandonar as ilusões confortáveis sobre o “potencial” do outro. Em troca desse preço, você ganha a posse da própria vida. Deixa de ser um corpo d’água represado pelo capricho alheio e passa a ter controle sobre o seu próprio curso. A beleza da frase de Rosa é que: o processo de amadurecer não é tornar-se imenso para que todos te vejam, mas tornar-se denso o suficiente para que ninguém mais te arraste.

Talvez uma otima metáfora na cultura pop para pagar o preço e assumir o controle da propria vida seja a cena final do filme O Show de Truman (1998). Truman é um homem que passa a vida inteira preso em um cenário artificial, para um reality show. Cercado por dinâmicas manipulatórias projetadas para mantê-lo ali. Quando ele finalmente encontra a porta na parede do estúdio, o criador tenta convencê-lo de que o mundo externo é perigoso e incerto. A decisão de Truman de se despedir com o mesmo sorriso que ele esboçava todo dia no espelho ao acordar, e atravessar aquela porta não é movida por rancor, mas pelo entendimento de que a ilusão de segurança de um ciclo conhecido não vale o preço da própria vida. Ele prefere o incerto à prisão de um roteiro repetitivo.

 

Então por mais que essa lição tenha me passado várias vezes ao decorrer da vida, eu precisei de muita reflexão e de abandonar minha autênticidade várias vezes por uma felicidade ilusória que a longo prazo ela não existe! O preço da liberdade é fazer escolhas e lidar com suas consequências. A não escolha tambem cobra um preço, que é ser escravo das cincunstâncias e viver esperando que os bons ventos sempre batam em nossas velas, esperando que as pessoas que nos cercam nunca ultrapassem nossos limites. Pode existir uma vida feliz assim? Talvez exista, mas ela com toda certeza é bem menos profunda e congruente do que a que almejo! Por fim me despeço como o grande Truman “E para o caso de não nos vermos mais, bom dia, boa tarde e boa noite!”

 

Fernando

34 anos, Professor, Historiador e Escritor. Fascinado pelo universo Geek e Pop. Leitor, fã de música e cinéfilo. Gosto de Jogos, animações, anime. Nas horas vagas quando não estou entregando a dama no xadrez eu escrevo aqui neste blogzinho! Me siga nas redes: Instagram @proferthenando Bluesky: @ferthenando.bsky.social

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